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  • Tom Zé 1968: psicodelia urbano-panfletária

    Lug 25 2006, 21:57

    Música, definitivamente, não nasceu para ser um panfleto de protesto. Aliás, reformulemos esta colocação: seres humanos não sabem protestar. Não neste regime que nos cerceia; não nesta cultura que nos controla. O protesto, assim sendo, é uma veia morta que todos nós temos. Mesmo assim, para o deleite de alguns velhos de fraque, sempre existirão teimosos com ranso e criatividade suficientes para transgredir uma época. Tom Zé em sua mocidade tropicalista de 1968 concebeu esta obra, Grande liquidação, e transgrediu uma época. Há uma frase - desconheço a autoria (será minha?) - que diz "quem é marxista aos 20 é um jovem, aos 40, um louco". Não sei se é verdade, não sei se é mentira; tanto faz, a discussão que paira por aqui é outra. O fato é que o musico nordestino - o mais paulistano dos nordestinos - aliado à ideologia da tropicália, transcendeu um momento chave da história de nosso pais.
    E como se transcende algo? Transgredindo? Também. Pensar no Brasil de 68, ano de AI - 5 e censura total à mídia e aos meios de imprensa, é transgredir, Qualquer ato digno nesta época é uma afronta ao sistema de regras. Pensemos então dessa forma. Seria este disco um libelo ao marxismo? Não há odes de exaltação a Karl Marx, deixe essa idéia de lado. Há uma essência toda irônica contra o consumista logo no título do álbum. E esse sentimento vive no decorrer das faixas. Em "curso intensivo de boas maneiras", Tom Zé, num sarcasmo genial, dá a receita para se dar bem no plano cultural capitalista. Em "Não Buzine Que Eu Estou Paquerando " , música que trata o homem de negócios como um estorvo a uma paixão de meio de rua, o cantor trata também da relação de dinheiro entre a indústria farmacêutica e as epidemias de saúde presentes nesses novos tempos com um sambinha que diz assim: "A sua grande loja/Vai vender à mão farta/Doença terça-feira/E o remédio na quarta. ". Sim, de uma atemporalidade magnífica.
    Falemos de musicalidade. Poucas pessoas percebem, nunca ouvi ninguém se atentar a isto. O disco traz uma carga tremenda de psicodelia. Cabe, inclusive, fazer aqui abrir uns parênteses. Psicodelia nem sempre está relacionada ao uso de drogas. Pode até ser que Tom Zé tenha dado um "tapa na moleca" naqueles tempos de flower power, mas isso não influiu na construção sonora das musicas. A palavra, tão somente o verbete cru do dicionário, nos transmite pelo menos duas idéias interessantes que muito dizem respeito ao artista Tom Zé. O Aurélio sugere: “Diz-se daquilo ou daquele que se distingue do meio tradicional, ou pela decoração, ou pela atitude, ou pela maquilagem, ou pela roupa, etc "e “relativo a, ou que se caracteriza por alucinações visuais, aumento de percepção e, eventualmente, comportamento parecido com o observado em psicoses.”
    Quando digo que este álbum tem uma orientação psicodélica, justifico também dando vazão aos arranjos maravilhosos e incrivelmente inspirados de Damiano Cozella (o mesmo dos arranjos da fase psicodélica de Ronnie Von) e Sandino Hohagen. Vale mencionar também as duas bandas de apoio presentes neste disco. Os Brazões, excelente banda de sonoridade tropicalista cujo primeiro e único álbum também data 1968, e os desconhecidos – pelo menos para este que escreve - Os Versáteis. Não só isso. Tem algo que é de grande mérito da tropicália. Falo da constante mudança de andamentos e formações melódicas que quase desnorteiam o ouvinte - vemos bastante isto na riqueza sonora dos Mutantes. Difícil é saber quem influenciou quem. Há um elo de ligação muito tênue entre o debut da banda da Pompéia e do músico baiano. Identifico-os como filhos de um mesmo parto. Por exemplo: os versos "Meu sangue é de gasolina/correndo não tenho mágoa/meu peito é de sal de frutas/fervendo num copo d'água", presente no clássico mutante "2001", foi retirada de " ". Tom Zé pode, pois apenas migrou um petardo poético para outra musica, também de sua autoria, utilizando outro apelo. Em contrapartida, outra parceria envolvendo os dois nomes acabou sendo posta como retribuição num álbum de Tom em 1973. Trata-se de “qualquer bobagem”, grande música gravada anteriormente pelos cinco paulistanos quatro anos antes.
    E aquele jeito alucinado de mendigo da Sé, marcante na forma de se portar do velho baiano - o mais paulista dos baianos, repito -. sempre comove. E o amor escancarado por São Paulo está evidente em músicas como "São são Paulo", faixa de abertura do disco e que ganhou o IV Festival Record de MPB de 1968. Na realidade, este retirante tem sim uma fascinação pelo urbano, pelo concreto cinza. Lembra assim, de soslaio, aquele troço que Adoniran Barbosa, celebre sambista, e que o Fellini, grande banda da cena paulistana dos anos 80, têm que até hoje eu não consigo copiar.
    E na verdade, o que temos neste Grande liquidação é um rabisco da personalidade do criador - não é tipo. É, sim, uma inconveniência solicita comprovada na história contada antes do primeiro acorde de "Camelô" "danado pode dizê em disco, num pode?" - pergunta Tom Zé cinicamente aos censores da ditadura. Caetano e Gil não conseguem mais ser o que eram, Estes hoje usam fraque, foram corrompidos pelo poder e pelos bons cachês. O protesto é a veia morta dos homens. Para alguns outros - vejo assim - é a veia cômica, o motor sarcástico que sabe ferir a quem deve. E Tom Zé, um performático da arte, nunca fez de seu protesto uma porta de banheiro.
  • Los Álamos: a reação química

    Lug 6 2006, 22:57

    Pois então vou eu, neste segundo dia de julho, cheio de pressa (falta pouco para a minha desgraçada volta os afazeres de uma área de faturamento...), escrever um pouco sobre essa banda de sotaque portenho. Jogam no ar muito reverb e delay; e quando decidem virar o disco, enfrentam uma sonoridade acústica que é um mistão roceiro de Kinks com Bob Dylan. Se jogasse o Los Álamos - banda da vez - no jogo de cartas, estes seriam os curingas do novo rock.
    Fato foi: na matéria publicada na versão capenga da histórica revista Bizz de uns meses atrás, intitulada “vinte e seis coisas realmente interessantes do novo rock” (coisa do tipo, perdoa as aspas, mas a crítica não), os rapazes de lá já visionaram a esperteza deste grande blogger e citaram na frente deste que vos escreve os méritos do conjunto. São bons mesmo, e argentinos. Sim, a esperança da América latina.
    No disco chamado “no se menciona la soga en la casa del ahorcado”, debut dos Alamos, vê-se claramente uma interferência de anos sessenta, visto parece, por um britânico bitolado dos anos 90.. E isso é bom, a jogada flui, pois veja só: na primeira faixa “asiento trasero”, me deparo com um Belle & Sebastian de “the boy with the arab strap” com vocais estupidamente gelados. Dá certo? Sim, funciona belissimamente. O vocalista lembra do passado, canta com frases curtas a criancice que passou; nome de música em espanhol com letra em inglês, que engraçado. A música cresce, as guitarras se cruzam e num momento sem aviso, a música cessa. A faixa 02 vem então, já com meu selo de aprovação estampado no rosto.
    Coragem é ter um bandolinista, integrante oficial da banda nesses tempos de ploc, plocs modernos do chamado hype; são regressistas sabe, não procuram nada do que por ventura existiu um dia. O chacundum deles é outro; são primos tristes do The coral e irmãos sujos dos já citados Belle & Sebastian Mas têm estilo. Jogam baixo para arrecadar alto. Nunca tocarão numa pista de dança, presumo. Não nas de hoje Estão mais para um lounge cheio de feno.Será que os anos 90 voltaram a estar na moda? Sei não...
    Eu adoro esses hermanos.